O Vento da Continuidade: Entre o Legado e a Inovação
- KEOPS CASTRO DE SOUZA

- há 1 dia
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Nesta última quarta-feira, o Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul não viveu apenas uma troca de cadeiras. Viveu o que a Desembargadora Maria Emília Moura em seu discurso chamou, com precisão náutica, de "Viração". É quando o vento muda e a gente precisa ajustar o rumo sem perder a velocidade. O Desembargador Rodrigo Mohr Picon assumiu a presidência para o biênio 2026/2027, e para quem, como eu, transita pelos corredores da Justiça Militar agora com a beca de advogado, o momento é de reflexão e confiança.
Conheci Maria Moura quando eu ainda era Tenente da Brigada Militar. Eu, ali, sentado como juiz do Conselho Permanente de Justiça, via nela a primeira magistrada militar a cruzar o meu caminho. Foi naquele trimestre, mergulhado no silêncio atento do escabinato, que decidi mudar de rumo. Eu não estava apenas assistindo a julgamentos; eu estava testemunhando o peso das palavras. Observar a oratória dos promotores, o duelo ético dos advogados e defensores públicos, e a precisão cirúrgica de cada voto dela, foi como ver o Direito ganhando carne e osso diante dos meus olhos. Foi ali, naquela convivência, que entendi que o Direito não estava nos livros, mas na alma. E foi por causa dessa experiência que voltei para a faculdade para terminar o que havia deixado incompleto.
Maria Moura não entregou apenas um mandato; entregou um Tribunal conectado com o Século XXI. E não falo de calendário, falo de espírito. Ela não permitiu que o simbolismo de ser a primeira mulher a presidir uma Corte de Justiça Militar no Brasil fosse apenas uma bandeira retórica. Ela humanizou a máquina. Em uma estrutura pequena e multitarefa, ela provou que a inovação não depende de orçamento, mas de vontade. Sob sua gestão, o TJMRS deixou de ser uma ilha para liderar rankings nacionais de sustentabilidade e equidade racial. Ferramentas como o Explica-JME e o Banco de Sentenças — hoje integrados ao Programa Justiça 4.0 do CNJ — mostram que a Justiça Militar gaúcha fala a língua da modernidade. Ela provou que a sensibilidade feminina e o rigor militar podem tomar café juntas na mesma mesa.
O comando agora passa às mãos do Desembargador Rodrigo Mohr. Para muitos, ele é o ex-Comandante-Geral da Brigada Militar, o oficial que liderou o policiamento da capital com mão firme e visão estratégica. Para mim, ele é o contemporâneo da Academia de Polícia Militar; alguém com quem compartilhei o sol do pátio e o aprendizado da disciplina.
Mohr não chega apenas por hierarquia, mas por mérito de quem conhece o "chão da tropa" e a complexidade da gestão pública. Sua fama de inovador e sua experiência de comando são as ferramentas exatas para os desafios que virão, como a transição para a nova sede na zona sul.
Não escrevo estas linhas por cortesia formal ou por qualquer protocolo vazio. Vivemos um tempo em que o Poder Judiciário brasileiro atravessa o seu deserto mais árido, onde a imagem da Justiça, em suas instâncias mais altas, é diariamente fustigada por crises que abalam a confiança do cidadão e nos fazem questionar os nossos próprios fundamentos. Em um cenário nacional de incertezas e tempestades permanentes, olhar para a nossa Corte Militar gaúcha e vê-la se mover com tal transparência e dignidade é um alento.
Escrevo porque a advocacia se fortalece quando as instituições são sólidas. A Desembargadora Maria Moura volta para seu gabinete, para o julgamento diário, deixando um Tribunal com selo ouro de qualidade. O Desembargador Rodrigo Mohr assume com o vigor de quem sempre soube comandar.
O vento mudou, mas o barco sabe para onde vai. A honra militar e o rigor jurídico continuam habitando o mesmo coração.
Keops Castro de Souza - Advogado
OAB/RS 94.634
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